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Berlim após 15 anos de obras gigantescas para comandar
grandes eventos, olímpiadas e paradas de música eletrônica, passando, é claro,
pela longa celebração da queda do muro, a capital alemã teve talento
para chamar as atenções do mundo, e está de cara nova.
Berlim não é tão antiga quanto outras cidades
alemãs, é apenas uns 200 anos mais velha que o Brasil, mas sua história
preenche volumes enciclopédicos, tantos são seus ciclos de ascensão e declínio.
A cidade vem sendo considerada a capital da europa do
novo milênio. Motivos não faltam, um deles é o fato de ela ficar entre o
oeste e o leste do continente, agora unidos. Outro: a abertura de galerias,
prédios, lojas e empresas de tecnologia, atraem gente moderna e criativa.
Berlim é cosmopolita, o que significa que, você não terá
dificuldade de se comunicar com os moradores. Os berlinenses, antes
muito fechados, estão cada vez mais adaptados aos estrangeiros, sendo mais
fácil de se entender.
O sistema de transporte da cidade está tinindo de
novo, ou seja, você poderá se deslocar para qualquer lugar com rapidez
e facilidade, mas tome cuidado ... existem alguns ciclistas da cidade,
que tentam atingir a velocidade do Schumacher. Os parques, praças e
biergartens (choperias ao ar livre) da cidade, ficam lotados de gente
bonita no verão, sem gravata, ou até sem nada, porque muitos alemães são
adeptos do nudismo nos parques, coisa que provoca espanto em muitas pessoas.
Berlim tem forma de salsicha, com uma ponta mais
gorda do lado leste. É lá que ficam os bairros mais badalados no novo
milênio, o Mitte e o Kreuzberg, antes, eram ocupados por casarões do
final do século 19, nada alterados pelo regime comunista.
Hoje, atrás dessas fachadas nostálgicas instalaram-se restaurantes, bares, casas
noturnas e galerias. Há, inclusive, várias casas brasileiras nesses
entraves, ainda mais populares depois que a caipirinha virou febre na
terra da cerveja - a Alemanha é o maior importador da cachaça brasileira.
Durante o dia, Berlim cresce do lado ocidental,
dominado pelo enorme parque Tiergarten, esse pulmão verde da cidade
começa no portão de Brandenburgo e termina no Zoologischer Garten e na
Kurfürstendamm, ou Ku'damm, avenida que era o centro da Berlim
ocidental nos tempos da divisão, e ainda é um importante centro de
compras. Do mesmo lado oeste fica o Schloss Charlottenburg, castelo do
século 18 usado como casa de verão pelos imperadores, e o Olympia-Stadion,
palco das olimpíadas de Berlim de 1936, mas moderníssimo e fica próximo
ao rio Spree, que corta a cidade de leste a oeste.Caminhar às suas margens,
ou passear de barco por ele ou pelos 200 quilômetros de canais navegáveis
que dão o azul à cidade, é uma receita infalível para relaxar.
Um passeio para Postdam, de meia hora tira o visitante
da moderníssima Berlim, para a pacata cidadezinha de 100.000 habitantes,
bem mais antiga que a capital. Potsdam tem palácios, igrejas e monumentos
de épocas variadas, sobretudo dos anos 1600 e 1700, quando a cidade floresceu.
Visitar o enorme neues palais, palácio em estilo barroco com 200 cômodos
ricamente decorados, é obrigatório.
Vale a pena também conhecer o pitoresco chinesisches teehaus, antiga
casa de chá chinesa que hoje exibe porcelanas, e passear pelo
holländisches viertel (quarteirão holandês), com muitas lojas,
galerias e cafés.
Um passeio menos tradicional é visitar as ilhas no mar báltico, três horas
de viagem ao norte de Berlim. É um pedaço bem sofisticado e exclusivo da
Alemanha. A mais conhecida é a ilha de Rügen, mas o recanto mais falado
é Hiddensee, onde artistas e autores famosos têm casa.
Para brindar, o seu passeio, "berliner weisse" a típica
cerveja da região da capital é levemente amarga e maltada, com 2,8% de álcool.
Os berlinenses costumam bebê-la com framboesa (schuss) ou aspérola (grün),
uma curiosa fruta local, deixando-a vermelha, no primeiro caso, ou
verde, no segundo. Para alguns é uma mistura estranha, mas não custa experimentar.
Berlim, uma cidade única,treze anos após a queda do
muro que a dividia em duas, a capital alemã vive grandes dias. Apesar de
estarem unidas ainda existem algumas diferenças, uma é romântica e pacata.
Tem gerânios nas janelas das casas e centenárias e bucólicas pontes
cruzando rios, canais e lagos - em maior número que em Veneza, não
duvide. Já a outra Berlim, agitada, pulsante, virou um gigantesco
canteiro de obras, com arrojadas construções em andamento a cada
quarteirão em que você bater os olhos.
A primeira Berlim, a tranqüila, conta com hotéis mais
baratos do que em outras capitais européias, habitantes gentis (incluindo os garçons),
um sistema de transporte perfeito (incluindo os bondes) e não tem atropelos,
nem congestionamentos.
Já a segunda Berlim, a agitada, é uma metrópole
insone, com punks e similares das tribos mais extravagantes,
perambulando diante de galerias de arte onde a vanguarda desponta ainda
mais vanguarda do que em Nova York. A grande notícia é que,
inssociáveis em tese, essas duas cidades de radical diferença entre si
estão falando a mesma língua e combinando tão bem quanto salsicha e
mostarda.
Tanto aos olhos do visitante da Berlim pacata quanto
para o turista da Berlim agitada - que, aliás, são os mesmos e ocupam
um mesmo espaço civilizado e seguro -, nada faz lembrar à primeira
vista que esta já foi, de fato, uma metrópole cindida. O que dividia
Berlim não eram os conceitos de tranqüilidade e agito. Mas um muro
inexpugnável.
Logo na chegada você já percebe a diferença,o táxi,
em geral um Mercedes-Benz ou um BMW - preço da corrida, baratíssimo,
do aeroporto ao Centro: 13 euros -, desliza sem sobressaltos por um asfalto
irretocável, livre de buracos, calombos ou lombadas.
Pela janela, você se surpreenderá com o verde que vai cercá-lo durante
toda a estada. Pois é, há muitas árvores. Em meio a elas, o táxi provavelmente
cruzará o Spree, um dos dois grandes rios da cidade (o outro é o Havel),
e margeará o Tiergarten, o maior parque de Berlim.
A despeito da temperatura lá fora, você dará de cara
com os ciclistas, disciplinadíssimos, pedalando em faixas exclusivas sobre
as calçadas. Mas, se for um dia bonito, também verá sobre a grama impecável
famílias inteiras e um punhado de jovens (e de outros nem tão jovens),
quase todos seminus, expondo-se ao máximo possível de raios solares.
Eles deitam e rolam, ao pé da letra. Esta é a Berlim pacata, claro.
Não se surpreenda, porém, se a Berlim pulsante estiver logo ao lado,
movida pelos coloridos guindastes e a força da grana que ergue coisas
belas - como o Sony Center, da Potsdamer Platz. Esse imenso conjunto de
edifícios foi disposto de forma a criar um amplo atrium central
iluminado pelo Sol.
Há de tudo nessa área, de cinemas a sorveterias. E
tudo revela ousadia no design, até mesmo os bancos da praça, em
reluzente aço inox. À noite, você correrá o risco de deixar o café
esfriar, o chope esquentar ou o sorvete derreter ao ver, hipnotizado, o
jogo de luzes que pinta ora de vermelho, ora de azul, o toldo
espetacular que passa a cobrir o conjunto. Todos os mestres modernos
assinam alguma obra por aqui. O francês Jean Nouvel criou a versão germânica das
avançadíssimas Galeries Lafayette. O alemão Mies van der Rohe,
célebre autor das cadeiras Barcelona, desenhou a Neue Nationalgalerie.
Seu conterrâneo Hans Scharoun, por sua vez, é o autor de outra série
importante de edifícios, chamada Kulturforum, em que se destacam a
Philharmonie - a sede da Filarmônica, regida por Claudio Abado na sala
de concertos com melhor acústica do mundo -, a Kammermusiksaal, o
Musikinstrumentem-Museum e a Staatsbibliothek. Agora, releia esses nomes
quilométricos e comemore. É provável que você tenha entendido quase
tudo.
Não se desespere, a sopa de letrinhas, todavia, não
cairá tão bem em certos cardápios. Imagine-se tendo de escolher um prato em um
simpático restaurante do bairro de Friedenau. A sugestão do chef:
UnserLammfleisch kommt aussch liesslich aus Neuseeland wo die Tiere das
ganze Jahr im Frein leben und sich ohne Zugabe von Futtermitteln
ausschlisslich von Gras ernähren. Fácil, não? Saiba que, na nossa
inculta e bela, esse prato equivaleria a "Carne de carneiro
exclusiva, vinda da Nova Zelândia, onde os animais vivem o ano todo em
liberdade e se alimentando apenas de vegetais sem qualquer
aditivo".
Por sorte, fique seguro de que haverá um garçom solícito que fala inglês,
para ajudá-lo a resolver a parada. Não bastasse, o vizinho da mesa ao
lado virá em seu socorro. Assim ocorre, também, nas ruas e nas estações
de metrô, se o berlinense perceber alguém com ar aflito, revirando um mapa.
Apontados como os maiores vilões do século 20, os habitantes de Berlim, em sua grande maioria,
querem deixar claro que não pretendem, no novo século, repetir o papel
de seus antepassados.
Uma visita obrigatória é a Kurfürstendamm, também conhecida
por Ku'damm - abreviatura, que facilita a comunicação com o taxista. Aqui estão as
grandes lojas, as grifes. Canetas, lapiseiras, bloquinhos, tudo encanta.
Mais ainda aqueles objetos difíceis de identificar de cara. Seria um chaveiro, um
porta-notas, um saca-rolhas ou um cortador de unhas?
Da Ku'damm, recomenda-se caminhar até a
Tauentzienstrasse - infelizmente ainda não brindada com uma
abreviatura. Fica aqui a KaDeWe, a segunda maior loja de departamentos
do mundo, só perde para a londrina Harrod's. Suba até o penúltimo
andar, o 6o. Ele foi reservado a comes e bebes das mais sortidas
procedências. O curioso é que, entre a infinidade de prateleiras, a
KaDeWe houve por bem instalar mini restaurantes, onde dá para provar de
tudo um pouco. Que tal champanhe com ostras? Mas o mais indicado - você
está em Berlim, ora essa - é deliciar-se com a inacreditável
diversidade de salsichas, tendo à frente um belíssimo copo, daqueles
com monograma colorido, de uma cerveja excepcional. Só não peça
"estupidamente gelada" ou "sem colarinho", duas
heresias nos torrões teutônicos. Ainda na região do que foi um dia a
dita Berlim Ocidental, as atrações se sucedem, tranqüilas ou agitadas
- como costuma ocorrer com as rodadas de cerveja. Pode ser o
Charlottenburg, o magnífico palácio do século 17, com um interior
precioso, como não existe equivalente na cidade. Ou, então, o
excepcional Museu Egípcio, que tem no acervo uma magnífica cabeça de
Nefertite. Se fizer calor, saiba que, por todos os cantos da cidade,
sempre haverá algum bar oferecendo a hefe weisen, a deliciosa cerveja
refrescante, muitas vezes servida em copos de meio litro.
Um berlinense fiel às suas tradições costuma dar
conta ao menos de um litro inteiro antes de pedir a conta. É o que ele
faz no fim da tarde, bebericando no Hoppetosse, um barco ancorado no
Spree. Do convés, você tem à disposição uma das mais belas vistas
de Berlim, refletida nas águas plácidas do rio. Ainda no lado
ocidental, Kreuzberg também vale uma caminhada - ou uma hefe weisen.
Situado próximo ao extinto Muro, esse bairro viu-se, nos anos 60,
desvalorizado e ocupado pelos imigrantes turcos, recém-desembarcados.
Hoje, é parte da Berlim pulsante. Percorrendo suas ruas, você verá
mulheres muçulmanas cobertas da cabeça aos pés - muitas delas
elegantíssimas - caminhando lado a lado com punks de cabelos coloridos
e hippongas de tranças empoeiradas. Evidentemente, qualquer visitante
terá a curiosidade despertada para o antigo lado Oriental da cidade
que, durante 54 anos - de 1945 a 1989 -, esteve sob o controle da antiga
República Democrática Alemã, ou seja, a Alemanha Comunista. Se você
espera encontrar apenas prédios parecidos, funcionais e desprovidos de
charme, herdados da arquitetura stalinista, terá uma surpresa. Essas
construções existem, claro. Mas, em boa parte, estão sendo renovadas
e ocupadas por restaurantes, galerias de arte e lojas descoladas. Assim
acontece no bairro do Mitte que, à sua maneira, virou uma espécie de
SoHo nova-iorquino ou Marais parisiense.
Uma das boas diversões na antiga Berlim Oriental é
entrar pelas vastas portas dos velhos edifícios comunistas. Ninguém o
barrará. Vá fundo, sem cerimônia. Haverá uma sucessão de outras
portas e de corredores, por intermédio dos quais você chegará ao
miolo dos quarteirões. Em muitos desses lugares, escondidos pelos
velhos edifícios, o visitante topa com praças, onde se está
instalando o novo comércio da região. Assim acontece próximo à
Kollwitzplatz, onde uma fábrica de cerveja foi transformada em um
agitado centro cultural, o Kulturbrauerei. Toda a área é uma sucessão
de bares, restaurantes, brechós, lojas com objetos do Oriente e muito
mais. Uma dica de quem percorreu passo a passo aqueles escaninhos: a
jóia da Coroa se revelará a quem tiver a disposição de caminhar até
o número 12 da Kastanien Alle. Passe pela porta e vá em frente na
direção dos fundos do terreno. Você acabará chegando a um pequeno jardim
um tanto selvagem e silencioso, incrustado no meio daqueles velhos edifícios.
Ali, eventualmente, estarão brincando crianças das
redondezas, escalando, inconseqüentes, pedaços das ruínas do antigo
Palácio do Kaiser. Que ninguém sabe como foram parar nessa área. Quem
imagina o ex-lado Oriental com um modorrento antro de prédios
decadentes, terá outras surpresas. Ele também abriga a Gendarmenmarkt
(a mais bonita praça da cidade), a elegante avenida Unter den Linden e,
claro, o célebre Portão de Brandenburgo, o monumento neo-clássico,
terminado em 1791 e considerado o maior símbolo de Berlim. Sem contar o
Domo, a catedral protestante do século 18, destruída e reconstruída
inúmeras vezes ao longo da turbulenta história da cidade. Mas a
atração mais impressionante desse antigo lado proibido de Berlim
talvez seja a Ilha dos Museus. O nome deve ser compreendido lato sensu:
em uma ilha do Rio Spree, ergueram-se vários museus, sempre com o
proverbial rigor dos alemães.
Nem todo mundo se interessa em gastar os dias
de descanso nesse tipo de passeio. Mas, pelo menos um desses museus, o
Pergamonmuseum, é garantia de deslumbramento. Nada mais surpreendente,
afinal, do que entrar em um edifício e deparar, em seu interior, com
outros edifícios, antiqüíssimos, trazidos de lugares distantes,
pedrinha por pedrinha, e remontados com precisão.
Cidade aberta, acena com seguros atrativos para quem quer conhecer a
Berlim pacata e a Berlim agitada. Portanto, vá entrando.
Se, diante de qualquer porta, surgir algum receio, basta decorar duas
raras palavras curtas no idioma de Goethe: "puxe" é ziehen
e "empurre" é drücken.
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